“Rio perene” no semiárido: esgoto tratado irriga plantações e estádio no NE

Um rio perene em meio à seca no semiárido nordestino. É assim que projetos ouvidos pelo UOL veem a oportunidade dada pelo tratamento e reúso da água do esgoto de pequenas cidades do Ceará, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco.

Santana do Seridó (RN) recolhe todo o esgoto dos moradores. Desde 2013, o que costuma ser rejeito vira insumo, usado para irrigação da palma forrageira —muito utilizada para alimentar o gado, especialmente em anos secos quando o capim morre.

“O projeto usa 30 mil litros semanais. Isso é suficiente para irrigar 1 hectare de palma com 20.000 plantas. A quantidade de água que usamos é 1,5 litro por semana por planta”, afirma Ivan Júnior, que foi autor e coordenador do projeto e hoje é professor do IFRN (Instituto Federal do Rio Grande do Norte).

O cultivo na cidade de 2.500 habitantes é mantido com 2% da água de reúso e rende uma produção de 400 toneladas de palmas por ano. Os 98% restantes são convertidos em rejeitos sem ameaças ao meio ambiente. Há espaço para ampliar a produção do projeto “Palmas para Santana”, iniciado em 2013.

“Se fizermos um cálculo rápido em cima de dados oficiais, no semiárido o consumo hídrico médio diário por pessoa é cerca de 102,2 litros. Se você pensar em um município com 10.000 habitantes, isso dá mais de um milhão de litros que podem ser reutilizados. Em uma região que tem restrição hídrica devido às poucas chuvas, eu entendo que o esgoto pode ser considerado como um rio perene”, afirma Júnior.

Ele afirma que a lei veda apenas alguns tipos de reúso, por exemplo, como irrigar com essa água culturas que são consumidas cruas, como hortaliças. “Um exemplo de possibilidade é a lavagem de calçadas. Antes de fazer reúso da água, existe a exigência de se fazer análise microbiológica e físico-química da água. Se estiver apta para irrigação, eu particularmente prefiro usar para esse fim”, conta.

Gramado do estádio de Afogados da Ingazeira (PE) é irrigado com água de reúso: custo caiu de R$ 15 mil para R$ 200 - Imagem cedida ao UOL - Imagem cedida ao UOL
Gramado do estádio de Afogados da Ingazeira (PE) é irrigado com água de reúso: custo caiu de R$ 15 mil para R$ 200 Imagem: Imagem cedida ao UOL

Grama verde no estádio

Em Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco, um projeto de reúso também foi premiado várias vezes, assim como o de Santana. O processo tem como base o tratamento do esgoto doméstico de mais de 600 imóveis antes sem atendimento. A água aproveitada garante a irrigação do campo de futebol local —e lá onde o time da cidade, que ficou conhecido nacionalmente ao eliminar este ano o Atlético-MG da Copa do Brasil, joga.

“A prefeitura pagava de R$ 15 mil a R$ 20 mil de conta de água para o estádio. Hoje o estádio paga pouco mais de R$ 200 com o uso básico, ainda tem a economia com adubo, sem contar mais de 2 milhões de metros cúbicos a mais de água tratada para a população”, explica Elias Silva, assessor técnico do município e coordenador do projeto.

Para o tratamento, o esgoto recebe um composto orgânico aproveitado da pecuária local para poder ser utilizado.

No sertão do Ceará, outro projeto utiliza placas de concreto usadas em cisternas para armazenar água para reúso de água em plantações. Após atender famílias numa primeira fase, agora chegou a vez das escolas.

Projeto do Rio Grande do Norte recebeu prêmios e serve de referência para iniciativas no semiárido - Ivan Junior/Arquivo pessoal - Ivan Junior/Arquivo pessoal
Projeto do Rio Grande do Norte recebeu prêmios e serve de referência para iniciativas no semiárido Imagem: Ivan Junior/Arquivo pessoal

Frutas e hortaliças nas escolas

Segundo Ademir Ligório, coordenador territorial do Cetra (Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador), a experiência de reúso teve como modelo o sistema desenvolvido no Rio Grande do Norte, relatado no início desta reportagem, e as cisternas foram uma opção local para baratear a operação.

Ainda em 2015, a comunidade de Aroeiras, a 20 km da cidade de Quixeramobim (CE), recebeu a primeira experiência de reúso para irrigar suas plantações. “A partir daí, o governo do estado financiou outros 200 reúsos do mesmo modelo”, diz.

Para as escolas, o foco é a reutilização da água da pia da cozinha. “A gente vê que é grande a quantidade de água utilizada para preparo e higienização dos alimentos, e o reúso consegue fazer a filtragem dessa água, que é bombeada para uma caixa e de lá distribuída para irrigar as plantas em um sistema de gotejamento, trabalhando fruteiras e também hortaliças com irrigação localizada”, explica.

Não existe um mapeamento que aponte quantos litros de água passam por reúso no Brasil. Segundo Mauro Felizatto, doutor em tecnologia ambiental e recursos hídricos pela UnB (Universidade de Brasília), o processo de reúso de água deveria ser mais explorado no semiárido, como ocorre em países com pouca oferta de água.

“Diz um ditado que a necessidade fez o sapo pular, porque ele não consegue andar. Isso quer dizer que, onde não tem água, você tem mais importância de ter o reúso. A quantidade que a gente faz de reúso é muito pequena, especialmente onde temos pouca oferta”, afirma.

Felizatto explica que, de acordo com o tipo de tratamento dado a essa água já usada, ela pode ser usada para várias finalidades. “Israel reutiliza para irrigação. Lá, 70% da água que irriga o deserto vem desse reúso. Na Namíbia, 30% da água é de esgoto tratado. Para cada tipo de reúso, há um tipo de cliente.”

Fonte: https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2020/07/29/rio-perene-no-semiarido-esgoto-tratado-irriga-plantacoes-e-estadio-no-ne.htm